Correr de máscara é obrigatório no Rio Grande Norte. Saiba o que dizem os especialistas

No último dia 5, o mais recente decreto publicado pelo Governo do Estado afetou diretamente os corredores e demais esportistas de rua. Pelas novas normas, tornou-se obrigatório o uso de máscaras para quaisquer atividades físicas ao ar livre. O objetivo da medida é endurecer a luta contra a propagação do novo coronavírus. Além da novidade em torno da obrigatoriedade, o decreto acabou criando alguns impasses entre os atletas.

Para clarear os pensamentos, facilitar os entendimentos e encerrar a polêmica, ou ao menos tentar, conversei com especialistas de três áreas ligadas ao esporte. Mas antes das argumentações técnicas quero antecipar os pontos unânimes entre todos. Primeiro: é obrigatório o uso de máscaras para correr, caminhar ou pedalar nas ruas. O decreto estadual está em vigor e não é recomendação, é determinação. Esse é o aspecto legal da história e lei não se discute, se cumpre.

O outro aspecto é de saúde pública. Vivemos uma pandemia e, mesmo que não existisse essa obrigação legal, correr de máscara na atualidade é principalmente uma questão de empatia. É zelar por si e por todos, se colocando no lugar do outro. Por fim, a recomendação primordial continua sendo de ficar em casa, ou seja, treine em casa. Mas, na necessidade de ter que sair, cumpra a lei e siga as recomendações de procedimentos pra treinar totalmente ISOLADO. Evite os grupinhos.

Com todos esses pingos nos “is”, vamos às informações dos especialistas. Conversei com o médico do esporte, Fábio Romualdo; a nutricionista e fisiologista do esporte, Amanda Nascimento; e o professor de educação física, técnico de Corrida e Triatlon da CB Sports, Paulo Rafael. Aos três a pergunta básica e primeira foi a mesma. Do ponto de vista técnico-profissional, o que você tem a dizer sobre correr de máscara?

Para o médico, antes de entender o uso das máscaras é necessário primeiro, entender como se faz o contágio. Ele lembra que o Covid 19 tem por padrão de contaminação gotículas expelidas por vias aéreas, através da tosse, fala ou contato próximo com outra pessoa ou material contaminado.

“O uso de máscaras, por decisão de decretos governamentais ou por decisão própria deve ser estimulado, já que elas funcionam como barreiras físicas ao vírus. Durante os treinos, as pessoas aumentam muito o volume de gotículas que expelem pela boca por estarem mais ofegantes e aí nesse cenário temos também o vento como propagador. Ou seja, do ponto de vista médico, se você está sozinho não tem quem proteger, nem de quem se proteger, mas se tem alguém por perto, o uso de máscaras é obrigatório. Agora, se a lei manda usar em todos os momentos, aí não tem o que fazer, deve-se usar.” ressalta Fabio Romualdo.

Ele destaca ainda que a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, em informe de 30 de março de 2020, não indica atividades físicas em academias, clubes esportivos e similares em locais fechados com grande número de frequentadores simultâneos e com manipulação de equipamentos por diferentes pessoas. Mas, recomenda o exercício ao ar livre, nunca em grupo, respeitando a distância interpessoal e evitando contato com superfícies diversas potencialmente infectadas, como toalhas ou garrafas.

Sobre essa distância entre as pessoas, não existem estudos até a presente data que determine qual a mínima segura, porém estima-se que se evite menores que dois metros. Esse assunto foi objeto de estudos europeus que questionam a possiblidade de contágio em até vinte metros, mas esses estudos ainda não são conclusivos e não foram publicados.

Correr de máscara faz mal à saúde? Atrapalha a respiração?

O debate em torno do uso das máscaras para correr ganha outros ingredientes entre atletas. A principal reclamação é sobre a dificuldade de respirar, principalmente em treinos mais intensos. Há ainda quem vá além e fale no risco de hipóxia que é a insuficiência de oxigênio no sangue comprometendo funções corporais.

“Não há riscos à saúde dos atletas com o uso da máscara. Ela não bloqueia a entrada de ar e assim não há riscos de hipóxia no treino. Eventos dessa natureza podem estar relacionados à estresse ou outras doenças. O que pode acontecer é a dificuldade de respiração, isso sim. Mas aí se deve principalmente pela falta de costume com o uso, o que se resolve com o tempo. Tudo é uma questão de adaptação e a repetição leva a isso”, enfatiza o médico.

Essa é a mesma linha de pensamento dos outros dois profissionais consultados. Para a fisiologista do esporte Amanda Nascimento, de fato não há problema no uso da máscara no esporte a não ser realmente o desconforto do acessório, e como qualquer outro, leva um tempo até o costume. Para ela, o que deve ter maior destaque nem é esse debate do ser confortável ou não correr de máscara. A questão deve ser levada para um aspecto mais amplo.

“O uso da máscara é uma obrigação para que possamos nos proteger e proteger o outro. É respeito à vida. Esse não é o momento de pensar se é bom ou ruim em se tratando de performance. E mesmo que fosse ruim, o objetivo dos treinos agora não é desempenho. Se o rendimento vier nesse período é por consequência, mas não é o objetivo de nenhuma periodização, seja de treinamento, seja nutricional. O objetivo agora é superar o caos do Covid pra que possamos voltar às atividades normais o quanto antes. Cabe ao corredor identificar qual modelo, estrutura e tecido são menos desconfortáveis e entender que é uma fase, que vamos passar por ela e temos que nos adaptar”, destaca Amanda.

O professor de Educação Física Paulo Rafael reforça que o foco do momento é o respeito às regras e à vida. “Acredito que as orientações de distanciamento entre as pessoas e o uso de máscara precisam ser seguidas. Do ponto de vista prático, realmente é bem incômodo, já que não estamos acostumados com o acessório e essa sensação de dificuldade ao respirar causada pela máscara é inevitável. Nos treinos, é importante ter atenção quando a máscara ficar úmida porque assim ela perde eficácia. Aí é hora de trocar a máscara”, frisa o treinador.

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