´Malcolm e Marie`: Filme debate relacionamento amoroso com crueza e objetividade

Muita, mas muita gente querida, me indicou esse filme. Certamente por saber, de tanto eu escrever sobre e comentar nas lives que faço com Theo Alves, de minha predileção quase obsessiva por filmes de “casal discutindo”, que na verdade, é quase um subgênero dentro do tópico ´Drama`. Isso é a pura verdade, por mais dolorosos que esse filmes que debatem relacionamentos amorosos a exaustão possam ser (e por mais gatilhos que possam disparar) e tenho sim, uma relação próxima com eles, paixão que vem do deslumbramento de quando assisti “Eu sei que vou te amar”, no cinema aos 17 anos, ou das dezenas de filmes do mestre Bergman com casais que se amam e se odeiam em igual proporção, sem falar das adaptações de Tennessee Williams e dos filmes de Antonioni.  

Esse “Malcolm & Marie” é essencialmente isso: Um casal ´lavando a roupa suja` ininterruptamente durante 1h50 de filme. Os únicos atores em cena são o casal vivido por Zendaya e John David Washington, ambos ótimos e cheios de nuances. A história, digamos, começa quando o casal chega em casa da pré-estreia do novo filme dele, jovem cineasta em ascensão, mas logo depois no processo de preparar um macarrão para ambos, ela questiona o porque dele não ter agradecido a ela em seu discurso, e a partir daí começa um rosário de acusações mútuas, rancores, revelações, farpas, desabafos, ofensas, enfim, vamos descobrindo todas as camadas por trás do casal. 

O roteiro é muito bem escrito e cheio de ótimos e fortes monólogos, mas, teria grandes chances de cair no tédio não fosse a direção muito segura de Levinson, que não deixa também o ritmo cair, da excepcional fotografia em preto e branco e saturações criativas, da cenografia (a arquitetura da casa isolada parece um personagem e expande as variações de humor e explosões dos personagens) e principalmente das interpretações do casal, como já disse, particularmente Zendaya, que de teen star, acaba entregando uma interpretação impactante, madura e bem visceral. John David é filho do lendário Denzel Washington e já havia mostrado talento em “Infiltrado na Klan”.  

O filme ainda consegue pautar boas discussões sobre racismo e percepção que os brancos têm sobre os negros, machismo e sexismo (principalmente nas ofensas que Malcolm dirige a Marie). Não imagine que vá encontrar filme parecido com “História de um casamento”, o `filme de casal discutindo` do ano passado, que tem outra pegada, de narrativa e forma mais convencional. Aqui a pegada é mais experimental, mais para filme europeu mesmo (e rigorosamente na vibe do citado “Eu sei que vou te amar”, de Arnaldo Jabor, que trata de um casal trancado num apartamento batendo boca durante uma hora e meia). 

Recomendo muito, enquanto cinema de qualidade e bom roteiro e pelas discussões sérias e adultas que proporciona, mas fique alerta: Não assista com o/a ´conje` se estiver em crise na relação e o filme tem muito potencial de disparar gatilhos, afinal, todo mundo acima de 25 e que já viveu um relacionamento sério vai se identificar de uma ou outra maneira em cenas do filme. No pior sentido. É para isso que o cinema adulto serve, para tirar da zona de conforto e incomodar. Esse ´´Malcolm & Marie` pela crueza dos diálogos, incomoda. Mas deve ser visto.

Fonte: Potiguar Noticias

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