Por que é tão difícil falar sobre saúde no sexo entre mulheres?

Lívia Campolina faz uma análise com diversos depoimentos sobre a sexualidade lésbica e bissexual

“Estávamos falando sobre adoção. Minha professora, médica ginecologista e obstetra, me perguntou se eu não queria engravidar. Eu disse que seria complicado. Não poderia engravidar naturalmente. Ela prontamente perguntou: ‘Como não? Você não sabe se tem problemas para engravidar’.

‘Não, naturalmente não posso ter filhos. Teria que fazer uma inseminação ou adotar.’ Enquanto ela insistia que eu poderia e eu rebatia que não, uma de minhas colegas se levantou e disse: ‘ela namora uma mulher, professora’. Foi então que ela parou de insistir e disse: ‘Nossa, que falha a minha, realmente não tinha pensado nessa possibilidade’.” – Clara Ramos, estudante de medicina.

“Até hoje eu não consegui uma/um ginecologista onde eu pudesse fazer um acompanhamento contínuo ginecológico que não diminuísse a minha sexualidade e a minha relação afetiva. Hoje sou casada com uma mulher e queremos ter filhos. Ter esse tipo de acompanhamento seria riquíssimo. Mas normalmente os profissionais de saúde dialogam ainda hoje de uma forma binária. Ao invés de perguntar coisa básicas, por exemplo: ‘qual foi a sua última relação?’,  eles dizem: ‘você tem parceiro?’” – Adriana Roque, psicóloga clínica.

“Eu tive que pedir para minha médica fazer o exame papanicolau. No meu caso, eu tenho histórico de câncer de colo de útero na família. Mas, por eu não fazer sexo com pênis, ela nunca me recomendou o exame.” – Nicolle Sartor, publicitária.

“Eu sou bissexual e até os 19 anos só me relacionei sexualmente com mulheres. Aos 18, um ginecologista disse que não podia me examinar porque eu era ‘virgem’. No ano seguinte, uma outra médica me perguntou com quantos anos tive minha primeira relação sexual. Eu disse que com mulheres foi com 16 e, com homens, 19. E ela colocou no meu prontuário: 19 anos.” – Larissa Darc, jornalista.

É comum ouvir esses depoimentos entre mulheres lésbicas e bissexuais. Ao procurar atendimento ginecológico, 40% delas prefere não revelar sua orientação sexual. Por quê? Ao revelarem, quase sempre há uma reação negativa, a consulta se torna mais curta e os médicos deixam de solicitar exames de rotina.

Dados do Dossiê Saúde de Mulheres Lésbicas, de 2006.

Segundo o mesmo dossiê, 89,7% das mulheres heterossexuais confirmam ter realizado exame Papanicolau nos últimos três anos. Entre as lésbicas e mulheres bissexuais, a cobertura cai para 66,7%. 

A lista continua. Em estudo da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, de 2012, apenas 2% das lésbicas disseram se prevenir contra Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).

Existe um mito de que o sexo homossexual entre mulheres seja menos suscetível a essas infecções. Crença reforçada por médicos, sintomática da falta de pesquisa e de informação sobre o assunto. Em uma outra amostragem, com 150 mulheres que se relacionam com mulheres, 47,3% delas tinham algum tipo de IST. Essa foi uma pesquisa da Unesp. 

De onde vem a desinformação

A ginecologista Caroline Reis, que atua no Hospital e Maternidade Sofia Feldman, em Belo Horizonte, explica onde começam essas questões: “A saúde no sexo entre mulheres não é abordada no curso de medicina. Nossa formação é deficitária em matéria de sexualidade como um todo, e ainda mais se tratando de homossexualidade e transgeneridade”.

A médica se assumiu lésbica já na faculdade e conta que, mesmo sendo parte de sua trajetória pessoal, o assunto só veio à tona mesmo no ambulatório. “Durante a prática, quando a mulher lésbica aparece com suas demandas, a gente percebe o quanto a própria entrevista médica é muito heteronormativa”.

Esse foi um dos motivos que fez Larissa Darc decidir escrever o livro “Vem cá: vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais”, em 2018. Por meio de entrevistas com médicas, a jornalista descobriu porque sua experiência sexual não foi considerada “válida” no consultório médico.

“Descobri que, quando a gente vai ser atendida, o fato de a gente transar só com vulvas vira um impedimento para o exame. Tem a questão da prevenção de ISTs  – para as quais não existem métodos de prevenção próprios. E tem a questão sobre a forma como a gente constrói o nosso repertório sexual.”

Para Larissa, pela falta de referências e de educação sexual, a nossa vida é permeada por achismos. E até mesmo por preconceitos. 

A psicóloga Adriana Roque, que atua com jovens no projeto Empodera Teen, confirma a dificuldade de abordar o assunto nas escolas.

“Há mais ou menos dois anos, dei uma palestra para professores e a dificuldade em acolher essas demandas ainda são latentes. Atividades efetivas são escassas. A leitura ainda é tão binária, reprodutiva e machista como quando eu tinha 14 anos e estava na escola.”

No Empodera Teen, a abordagem é diferente: abrem-se espaços para falar sobre a experiência e as dúvidas de cada adolescente. A proposta é informar sobre o corpo dela, sobre os desejos e atração que ela tem despertado. Sobre cuidado, não repressão.

“E o que acontece? Algumas meninas começam a entender que podem dizer não para o namorado, que elas não precisam transar para se sentirem amadas. E as meninas que se relacionam com meninas, que elas não precisam se sentir culpadas”.

Vogue.

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