“A inquietude intelectual e os vícios” crônica de Fabiano Pereira

Por vezes, creio que certas pessoas parecem ter nascido com um pequeno defeito de fábrica na alma. Não é nada grave, desses que exigem troca de peça. É apenas uma sensibilidade a mais, uma espécie de antena comprida demais para o tamanho do peito. Gente assim vive tropeçando no que sente. Conheci alguns ao longo da vida. A maioria eram artistas, poetas ou filósofos. Alguns eram músicos, arquitetos e havia também bons amigos de outras áreas que jamais aprenderam a sossegar. Todos tinham algo em comum: olhavam para o horizonte como se pedissem mais do que o mundo costuma oferecer. Talvez enxergassem com nitidez maior do que a maioria. E ver demais também cansa.

Há pessoas que carregam dentro do peito uma fogueira que não se apaga. Pensam muito, sentem muito e percebem coisas que passam despercebidas para outros. Caminham pelo mundo com a sensibilidade exposta, como quem atravessa um campo minado a pés descalços. Costumam ser chamadas de brilhantes. Eu prefiro chamá-las de excessivas. Porque nada nelas é morno; tudo é intensidade. E viver assim não deve ser fácil. É nesse cansaço que alguns encontram no álcool ou nas drogas uma promessa de descanso, uma pausa para a consciência que nunca silencia. Não há glamour nisso. Nem rebeldia. Muitas vezes é apenas um desespero silencioso.

Alguns filósofos perceberam esse fenômeno muito antes da ciência. Friedrich Nietzsche sugeria que a dor cresce em quem enxerga longe demais. Emil Cioran descrevia a consciência como uma lâmina fria que corta até o osso e Arthur Schopenhauer acreditava que viver com lucidez excessiva pode tornar a existência pesada demais. Hoje sabemos que muitos indivíduos altamente criativos ou sensíveis possuem uma mente que raramente descansa. É como um motor de avião funcionando dentro de uma bicicleta. O mundo não acompanha. E o corpo tenta sobreviver como pode. Por isso tantos talentos tropeçaram ao longo da história. Não necessariamente por fraqueza, mas por intensidade.

Alguns bebem para diminuir o barulho interno. Outros recorrem a substâncias em busca de uma trégua momentânea. Há quem procure em uma taça apenas alguns minutos de silêncio. O homem comum, aquele que acorda, trabalha e retorna satisfeito ao seu cotidiano, parece possuir uma espécie de proteção natural contra certas angústias. Usa um casaco mais grosso, por assim dizer. O inquieto, ao contrário, caminha pelo mundo com a pele descoberta. Qualquer vento pode se transformar em tempestade. E como não existe manual para viver com essa pele fina, muitos procuram abrigo improvisado: um copo, um pó, ou qualquer distração que permita descansar da própria mente. Às vezes funciona. Outras vezes não. No fundo, não se trata apenas de vício. É a alma pedindo férias de si mesma.

Penso nisso quando vejo algum amigo inquieto abusando da bebida ou de outras substâncias. Fico sem coragem de julgá-lo. Porque ali não vejo um pecador. Vejo alguém cansado. Alguém que precisou desligar o motor por alguns minutos. Apesar disso, há algo admirável nessas pessoas. Falham muito, é verdade, mas amam profundamente. Vivem machucadas, porém enxergam poesia onde muitos só veem rotina. A vida seria mais tranquila se todos fôssemos equilibrados e práticos. Mas suspeito que também seria mais pobre.

São essas mentes inquietas que muitas vezes trazem ao mundo novas ideias, músicas inesperadas, gestos generosos ou formas diferentes de olhar a realidade. Pesquisas recentes indicam que indivíduos com alta criatividade, pensamentos divergentes ou inteligência acima da média costumam viver sob maior hiperestimulação mental. Pensam mais, dormem menos e enfrentam conflitos internos mais intensos. Nesses cérebros, os mesmos sistemas neurológicos associados à criatividade, especialmente os circuitos ligados à dopamina, também aumentam a vulnerabilidade a vícios e compulsões. A genialidade e a fragilidade, muitas vezes, nascem do mesmo lugar.

A história da literatura está cheia de exemplos. Ernest Hemingway tentou afogar seus demônios no uísque. Edgar Allan Poe lutou contra o álcool e o láudano. Jack Kerouac buscava nas anfetaminas o ritmo de sua escrita e Charles Bukowski transformou o próprio vício em matéria literária. Para muitos deles, o álcool funcionava como desinibidor do inconsciente, lubrificante emocional ou tentativa de silenciar pensamentos que não davam descanso. Mas a conta sempre chega.

As pessoas mais sensíveis costumam amar mais, sofrer mais e perceber aspectos da realidade que outros preferem ignorar. Não surpreende que muitas procurem algum tipo de anestesia para amortecer esse excesso de mundo. Nesse contexto, o vício aparece menos como destruição deliberada e mais como uma tentativa imperfeita de autopreservação.

Filósofos e escritores observaram esse fenômeno há muito tempo. Charles Baudelaire falava do álcool e do ópio como portas ilusórias para escapar da consciência. Oscar Wilde dizia que a maioria das pessoas apenas vive, enquanto poucas realmente existem. E Fyodor Dostoevsky retratou repetidas vezes personagens brilhantes e atormentados, quase sempre em luta contra vícios ou obsessões.

Talvez porque quem enxerga demais também sinta demais. Essas pessoas não escolhem necessariamente o vício. Às vezes apenas encontram nele uma tentativa de descanso. Não são fracas. São profundas. E tudo o que é profundo dói.

prima@ prima@

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