“Do Cigarro à Tela: a Evolução dos Vícios, crônica do arquiteto e escritor Fabiano Pereira”

Vícios que atravessam gerações

Os vícios raramente nascem isolados dentro de um indivíduo. Na maioria das vezes, são comportamentos aprendidos socialmente. Espalham-se como hábitos de consumo, quase como modas coletivas que atravessam gerações.

Antes mesmo do meu nascimento, entre as décadas de 1920 e 1960, fumar era praticamente um símbolo de sofisticação. O cigarro estava associado à liberdade, à rebeldia cultural e, não raramente, à sensualidade. Nos filmes de Hollywood, atores e atrizes seguravam cigarros com a elegância de quem exibia um acessório de estilo.

A fumaça que subia lentamente, parecia fazer parte da própria estética da cena. Na publicidade, médicos recomendavam marcas, cowboys atravessavam desertos com um cigarro entre os dedos, e a ideia de glamour se misturava àquela pequena coluna de fumaça branca.

Hoje sabemos que muito daquele glamour não passava de uma ilusão cuidadosamente construída.

Quando a ciência mudou a percepção

Foi apenas mais tarde que estudos epidemiológicos começaram a demonstrar, com clareza científica, a ligação entre o tabagismo e diversas doenças graves: câncer de pulmão, problemas cardiovasculares, enfermidades respiratórias e tantas outras.

A partir dessas evidências, vieram as políticas públicas: alertas cada vez mais explícitos nas embalagens, campanhas educativas, restrições ao uso em ambientes fechados e limites à publicidade.

O resultado foi uma transformação cultural profunda. O cigarro, antes elegante, passou a ser percebido como algo incômodo, inconveniente e até socialmente constrangedor.

A prevalência global do tabagismo caiu de forma significativa nas últimas décadas. O que antes era símbolo de charme passou a ser visto como um hábito perigoso e ultrapassado.

Mas a história dos vícios não termina aí.

A era da contracultura e das drogas psicodélicas

Na sequência histórica surgiu o modismo das drogas psicodélicas. Nos anos 1960 e 1970, substâncias como LSD, psilocibina e mescalina ganharam grande notoriedade.

Aquela época foi profundamente marcada pela contracultura hippie, que questionava os valores tradicionais da sociedade ocidental. Falava-se em expansão da consciência, espiritualidade alternativa, ruptura com o sistema e novas formas de liberdade pessoal.

A música brasileira também refletiu esse espírito de experimentação. Artistas como Raul Seixas, Gilberto Gil e os Novos Baianos traduziram, cada um à sua maneira, aquele clima de inquietação cultural e busca por novos horizontes existenciais.

Enquanto isso, o álcool continuava presente em todas as fases da história. Desde as civilizações antigas até os bares contemporâneos, a bebida sempre ocupou um lugar central na vida social humana.

A mudança de comportamento da Geração Z

Mas algo curioso começou a acontecer nas últimas décadas.

Pesquisas recentes mostram uma mudança geracional bastante clara. A chamada Geração Z, com jovens nascidos aproximadamente a partir da segunda metade dos anos 1990, bebe significativamente menos do que as gerações anteriores.

Alguns levantamentos indicam que cerca de 60% desses jovens consomem pouco álcool ou simplesmente não bebem.

As justificativas apresentadas são, em grande parte, bastante razoáveis. Muitos citam preocupações com saúde física e mental.

Outros mencionam o medo da ressaca e da consequente perda de produtividade no dia seguinte.

Há ainda um fator novo: a vigilância permanente das redes sociais. Em um mundo onde qualquer comportamento pode ser filmado e compartilhado em segundos, a embriaguez deixou de ser algo romantizado.

Ser lúcido tornou-se, para muitos jovens, uma escolha estratégica.

O novo vício do século XXI

No entanto, há um ponto que merece reflexão.

O mundo sempre estará viciado em alguma coisa.

A dopamina não perdoa.

Silenciosa e poderosa, ela sempre encontra um novo prazer para manter o ser humano cativo. Quando uma forma de estímulo perde força, outra rapidamente ocupa seu lugar.

Hoje, as novas drogas podem ser justamente aquelas que parecem mais inocentes.

Não estão em comprimidos coloridos, nem em garrafas ou cigarros.

Elas habitam as nossas mãos, iluminando discretamente o rosto de milhões de pessoas todas as noites.

Estamos falando dos chamados vícios comportamentais.

Smartphones, redes sociais, jogos digitais, plataformas de streaming e outras interfaces digitais foram projetados com mecanismos extremamente sofisticados de captura da atenção humana.

A dopamina da era digital

Muitos desses sistemas utilizam estratégias de reforço intermitente.

O mesmo princípio psicológico empregado em máquinas de caça-níquel.

O cérebro aprende rapidamente a buscar recompensas rápidas: uma notificação, um “like”, uma nova mensagem, um vídeo inesperado.

Forma-se então um ciclo poderoso de antecipação, recompensa e repetição.

Cada toque na tela carrega a promessa de uma pequena dose de prazer.

E assim, quase sem perceber, milhões de pessoas entram em um comportamento compulsivo de verificação constante.

Nos consultórios de psicologia e psiquiatria já ficou evidente que esse novo vício se tornou um dos grandes inimigos dos relacionamentos.

Quando não existia o celular, a distração era conversar descontraidamente com seu companheiro ou companheira.

Refeições em família, verdadeiro remédio para o estresse da vida moderna, estão sendo lentamente corroídas. Cada um se senta à mesa, mas permanece prisioneiro do próprio celular.

O impacto nas crianças

No entanto, o maior caos anunciado, recai sobre nossas crianças.

Para um desenvolvimento sadio, elas precisam de convívio com a natureza, movimento, brincadeiras livres e convivência real, pois tudo isso instiga a imaginação, que cria uma mente inventiva e criativa.

Crianças muito expostas a telas recebem estímulos rápidos, recompensas imediatas e novidades constantes sem nenhum esforço.

Tudo isso gera picos repetidos de dopamina e aí vem o problemão: o cérebro infantil aprende rápido.

Ele passa a preferir esses estímulos intensos e instantâneos e começa a achar o resto da vida lenta demais.

É por isso que muitos pediatras afirmam que as telas são “junk food para o cérebro”.

Por vezes me pergunto: que adultos surgirão de uma geração que cresce olhando mais para telas do que para o mundo?

O cigarro da geração digital

Por isso, alguns pesquisadores e educadores têm utilizado uma metáfora provocativa: o smartphone seria, em certo sentido, o cigarro da geração digital.

Durante décadas, o cigarro parecia inofensivo e elegante. Apenas muito tempo depois a sociedade compreendeu o tamanho de seu impacto coletivo.

Talvez estejamos vivendo algo semelhante.

Entre a fumaça do passado e o brilho das telas do presente, a história humana segue seu curso silencioso.

Mudam as substâncias, mudam os objetos, mudam as modas.

Mas o mecanismo permanece o mesmo.

O cérebro continua sedento por pequenas recompensas.

E nós seguimos, geração após geração, em busca da próxima dose de dopamina.

Do Blog:

Uma reflexão interessante sobre como os vícios acompanham a evolução da sociedade. Mudam os tempos, mudam as formas, mas a busca por estímulos e recompensas continua presente na vida humana.

prima@ prima@

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